Danças sagradas e transmutações metálicas

Os movimentos dançantes fazem parte da rotina das mais variadas espécies de animais quando se aproxima a época do acasalamento. Lembre-se dos exemplos da garça, da serpente cascavel, da ave-do-paraíso etc. Talvez por isso, a dança seja, eminentemente, sexual.
O VM Samael dizia que todas as atividades humanas estão imbuídas da troca de energia sexual. Historicamente é dito que nos ritos de fertilidade surgiram as primeiras manifestações da dança. Para nós, estudantes gnósticos, isso está claramente ligado às práticas tântricas realizadas nos antigos Templos de Mistérios.
Essas manifestações primordiais da Arte dos Movimentos Sagrados tinham como tema os grandes tesouros da sabedoria oculta: o dilúvio que afundou o continente atlante (presente em quase todos os mitos sobre a Criação e Manutenção do mundo); o trabalho como forma de punição aos homens, que depois da queda da Lemúria foi condenado a ganhar o próprio sustento; vida, morte e ressurreição; a descida ao inferno para salvar o irmão, amante ou filho… Tudo isso eram os temas das danças sagradas dos primeiros arianos.
A dança do ventre é uma dessas antigas danças, ou o que sobrou delas… Há uma identidade comum nas danças de alguns povos da África e Ásia, bem como entre os índios Canela e Gê do Brasil; já aquilo que é apresentado para turistas em alguns países do Oriente Médio não é mais que uma vaga recordação dessas danças primitivas, associadas à descoberta do amor sublime, aos movimentos sexuais, às dores do parto e à divina morte.
Nessas antigas formas de dança estavam também presentes as Máscaras, usadas como forma de proteção e roupagem cerimonial nas invocações teúrgicas.
No Egito iniciático, a Dança tinha caráter sagrado. Sua invenção era atribuída a Bes (conhecido nos rituais gnósticos como Bes-Na), um poderoso Deva da Natureza que usava pele de leopardo e protegia contra feitiçarias, além de facilitar o parto. A patrona da dança era Hathor, a Vaca Sagrada, símbolo da Mãe Divina.
Os Mistérios de Osíris, o “Cristo egípcio”, eram cantados e dançados no Templo. Os personagens usavam máscaras e executavam um gestual estipulado, sempre acompanhados de cantos e danças.
A dança como expressão e contato com o Sagrado esteve presente também entre os primeiros judeus e há alguns relatos bíblicos sobre essa arte esotérica: depois que Moisés, liderando o povo eleito, sai do Egito e atravessa o Mar Vermelho, ele e sua irmã Mirian dançam para agradecer ao Senhor dos Exércitos. Vemos também o rei Davi cantando e dançando quando a Arca da Aliança chega a Jerusalém.
Em obras ditas apócrifas vemos outras expressões da Dança Sagrada Circular, como no Livro Apócrifo de João, muito lido ainda pelos cristãos ortodoxos sírios e iraquianos, onde se lê que Jesus ordenava a seus 12 Apóstolos que se posicionassem em círculo, ao seu redor e de mãos dadas, e depois começassem a dançar e a rodopiar (à moda dos dervixes), enquanto Ele, o Cristo, entoava doces cânticos em louvor ao Altíssimo.
Existem muitas outras histórias mitológicas a respeito da dança… Reia salvou seu filho Zeus de ser morto por Cronos, o pai da criança, sapateando para abafar o choro da criança. Na ilha de Creta era possível materializar a Deusa Mãe fazendo-se uma dança circular que levava ao Êxtase.
Ainda na Grécia antiga, a viagem de Teseu pelo labirinto do Minotauro era celebrada com uma dança em que os jovens (rapazes e moças) ficavam em fila, de mãos dadas, e imitavam os movimentos de Teseu pelo labirinto da mente.
As touradas e os jogos de bola são expressões de antigas danças ritualísticas: o culto ao Deus que era ao mesmo tempo Pai e Mãe e à criação do Universo.
Todo o benefício de dançar é resumido no calor do corpo e na sublimação da energia sexual, conforme preconizada pelo VM Samael Aun Weor. Sublima-se a energia sexual não apenas com exercícios respiratórios, mas também com exercícios físicos moderados e desenvolvimento do sentido estético.
Tudo isso existe em muitos tipos de danças que, mesmo afastadas de suas origens primordiais, chegaram aos nossos dias, como é o caso das danças do ventre, flamenca, clássica, balé e danças regionais, como as escocesas e irlandesas (influenciadas pelos sábios templários fugidos das perseguições inquisitoriais).
Esse caráter sexual da dança é óbvio também nos cultos dionisíacos… Usando guirlandas de folhas de rinha e cobertas de peles de bode, as mulheres dançavam freneticamente até chegarem ao Êxtase. Durante o cortejo (isso na sua fase decadente, é óbvio), comiam carne crua e dilaceravam animais vivos para incorporarem a força divina. O clímax era o sacrifício de um bode.
Quando esse ritual ainda não estava degenerado, tais animais eram a representação simbólica de nossos defeitos animalescos sendo eliminados, então comia-se a carne, ou seja, a consciência era liberada a partir do fogo sexual, e o bode sacrificado era a supressão do desejo animal através da não ejaculação do sêmen, método pelo qual o fogo se transforma em luz e o alquimista transforma a paixão descontrolada em sublime amor e fogo.

Shiva Nataraja

O deus Shiva é a personificação da dança e das transformações, simbolizando a eterna mutação do universo, que consiste na cíclica destruição e criação. O processo cósmico é a morte e a ressurreição, a eterna renovação da vida. Dentro de nós mesmos, a ação de Shiva seria a de morrer para nosso velho mundo, nosso “querido” Ego, e renascer a um novo ciclo de consciência interior.
A dança tem por tema a atividade cósmica, a eterna transformação.
As cinco atividades divinas de Shiva são:
– a criação contínua do universo, originada no ritmo
– a conservação, baseada no equilíbrio e na medida dos movimentos
– a destruição das formas já superadas, mediante o fogo interior
– a eterna renovação
– a encarnação da vida.
Chama a atenção que o Deus da Dança, Shiva Nataraja, seja ao mesmo tempo o deus das Mudanças, o que implicaria que as mudanças são induzidas pela dança.
Shiva é representada com o pé direito esmagando um demônio, o que simboliza a vitória sobre as forças demoníacas da destruição, e o esquerdo no ar, representando o equilíbrio e o impulso de ascensão. A imagem possui quatro braços, com os quais realiza a criação e a destruição cíclica do mundo. Está rodeado por um círculo de fogo. A dança de Shiva é, portanto, um movimento que destrói para gerar o processo de criação. Inspirado nesta dança e em sua simbologia de transformação, foi elaborada a “Dança das Transformações”, que possui três atributos essenciais do movimento: Unidade, Equilíbrio e Harmonia.
Hoje em dia, os sagrados rituais de dança desapareceram do nosso mundo, e os poucos lugares onde ainda são praticados são de acesso muito difícil.
Mas ainda persiste no homem a necessidade de expressar suas emoções através dos movimentos e desta forma, a cada época, vemos predominar um estilo musical que traduz todo o sentimento daquela geração. A Biodança busca reacender assim, dentro de cada um, a chama sagrada da vida, resgatando, nas vivências de Danças Sagradas, o contato com as forças que regem o universo.
Gnosis

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